Recesso
O blog estará em recesso por algum tempo, talvez indeterminado. Hora do meu recesso particular terminar.
Experimentos e ficções
O blog estará em recesso por algum tempo, talvez indeterminado. Hora do meu recesso particular terminar.
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Madalena de Vilhena
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Sempre as mesmas, sempre os mesmos...mecanismos. Entretanto, já não há mais espaço para eles ou seria melhor construir novos e mais eficientes. Perdida em angústia, medo, resistência, paralisia. A depressão fora temporiamente curada mas a resistência permanece. Necessário é adotar novas formas de viver e ousar e realizar, uma vez que as realizações fazem parte da gama ainda tímida de desejos e aspirações. Conheci pessoas que estabeleceram uma relação de leveza com a vida e me esforço para começar a fazer o mesmo. É o início. É o medo. É a resistência entoando esta velha e repetitiva cantiga interior. O medo de conquistar o novo e de alcançar mais. Ao mesmo tempo já estou consciente, saí um pouco da alienação de antes mas continuo um ser travado. Há dois anos conheci um homem cuja relação com o mundo é uma das mais interessantes. Ele busca as pessoas, as mulheres, o prazer. Acho que J. vive de acordo com o princípio do prazer embora execre os psicólogos como inúteis. E depois de tê-lo conhecido - ainda que muito superficialmente - obtive novas referências mais saudáveis sobre o ser masculino e a vida, de modo geral. Simpatizo com ele por razões de identificação: acredito que ele também seja um ser humano remando contra a correnteza. Além de ser um bon vivant em regra. Depois de ler um de seus textos - supostamente literário - há um ano, um desespero estranho tomou conta de mim. A descrição das vivências no exterior e as breves menções aos episódios sexuais me deixaram inquieta e - admito - aflita. Excitada, diria a psicóloga. Talvez eu tenha um mecanismo de mortificação tão eficiente que mascare de forma dolorosa até mesmo os momentos de excitação que se traduzem em uma espécie de desespero auto-destrutivo. No fundo é isso, é o traço histérico. "Deixa disso e te aproxima de mim". Ele fora gentil e eu tapada, "desapareci". É que apesar da idade ainda sou imatura em múltiplos aspectos. Aspectos que só a experiência nos proporciona e liberta. A experiência salva, liberta. É, isso faz sentido. Não há outro caminho. É preciso lançar-se ao desconhecido, perder e ganhar. Ninguém vence 100%, ninguém perde 100%. Não há conquistadores nem rejeitados absolutos. O potencial existe e não é pequeno. Sofremos com a repressão que nos paralisa ao longo do tempo. E interromper um processo tão arraigado é difícil. Mais difícil é continuar com ele. Acertei as contas com o meu passado enamorado. São várias as histórias de rejeição, cabeçadas, erros, teimosias, choro e ranger de dentes. Creio que a intensidade foi grande a ponto de me deixar mais cuidadosa em alguns aspectos e menos em outros. As situações análogas me impacientam e fico em estado de alerta. Desejo o novo, não há mais nada a esquadrinhar lá. Não me deixo mais aprisionar pelo mito do amor romântico que tanto empatou o crescimento da afetividade. É incrível como eu tinha um pensamento católico, convencional, restrito, ingênuo. Ainda tento me autoconhecer. E não sou assim, quiçá nunca tenha sido, mas vivia submersa no mundo sublimatório, castrada, infeliz. Empreendi fuga nas estradas em busca de algo menos doloroso. Mas a dor lá me esperava. Fosse na hostilidade, incompreensão ou mentiras. Essas dores se distanciaram, esvaziei-me. Hoje só há espaço para novas atitudes, novas formas de relação com o masculino: mais leves, mais prazerosas, não convencionais. Fui muito cabeça dura. Quero mudar. Ainda estou em transição, mais de 300 dias de transição. Começo a me compreender melhor. Aceito o que errei. Não há o que lamentar o que passou. Não busco mais os cavaleiros. Buscarei a leveza e a satisfação.
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Madalena de Vilhena
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Com um véu diante dos olhos - assim o enxergava embora ele se mostrasse exatamente como era. Só visualizara o próprio desejo e não o outro. Por muito tempo embalara a esperança de entendimento, era a primícia paixão, o amor romântico, Lady Shalott e seu espelho, o cavaleiro mascarado, uma concepção quase medieval de tão católica a respeito das relações afetivas que deveriam objetivar o casamento dentro dos padrões sociais e a construção do núcleo familiar. Na época comprara revista de noivas, olhara vestidos, almejava a união com seu primeiro namorado. Acreditava ser este o único e correto modo de estabelecer relações. E choviam conflitos com o be loved, desejos sexuais não se adequam a padrões, do contrário não são essencialmente autênticos. E ele era autêntico, seus defeitos eram mais que verdadeiros. Mas ela preferia permanecer num intrincado mecanismo alienatório, embora o fato de estabelecer aquele relacionamento significasse uma fuga de um contexto real insuportável. Ambos viviam mergulhados em suas alienações particulares, não havia comunicabilidade nem parceria de fato. Havia ensaios, estranhamentos, atração, corpos desejantes e travas inúmeras. As dela de formação, as dele de afeto. Embora frágil, o relacionamento tivera momentos líricos. Tal lirismo se deve a autenticidade do sentimento investido, era uma fuga mas consciente, buscava algo muito desejado. A fuga durou tempo considerável, os protegia de envolvimentos definitivos, concretos de fato. De tudo fica um pouco e o fantasma da culpa a perseguiu insistentemente. Faltara diálogo, compreensão, habilidade, leveza, maturidade. Tinha o péssimo hábito de levar tudo a fogo e ferro. Faltas, sempre as faltas, marca registrada de seus envolvimentos ditos amorosos. Os anos passaram. De tudo fica um pouco e a lembrança dele começou a persegui-la em sonhos durante noites seguidas. Teria ele morrido? Conseguira depois de muita auto-análise e novas experiências expulsar culpas e fantasmas. Permanecera a melancolia e a conclusão de que nunca se tinham conhecido profundamente, verdadeiramente, emaranhados estavam por fatores adversos e limitações. O sentimento se fora, apenas uma longínqua memória, um filtro que decantara os momentos felizes mais expressivos. De tudo fica um pouco e finalmente conseguira se libertar do passado, conversara com ele após seis anos de silêncio, pudera explicar em parte como se sentira depois do fim. De tudo fica um pouco e sentiu-se muito aliviada. Ele permanecia ainda disciplicente, alegre, imaturo quase ingênuo a usar uma máscara de destruidor de corações femininos. Abrira-se após alguma resistência e ela entendera que ele ainda era o mesmo, como se o tempo e eles nunca tivessem existido. De tudo fica um pouco e ficara contente ao compreender, por fim, que a culpa sempre fora inútil, pesada e em vão, não poderia ter evitado o desfecho das coisas como realmente ocorreram, tudo só poderia ter acontecido como realmente aconteceu. Estava livre da dúvida. Leve. A memória afetiva poderia ficar num passado bem distante. As travas restantes seriam superadas pouco a pouco e para isso os casos sempre ajudavam muito. O espelho de Lady Shalott estilhaçara-se. Ela fora salva da morte nas águas de Camelot. No lugar do véu pintado, a luz. Pés a caminhar em direções nunca trilhadas anteriormente.
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Madalena de Vilhena
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Revejo-me num vídeo antigo gravado no vão livre do MASP há tempos. Tinha um ar desajeitado, tímido, meio medroso mas ao mesmo tempo sorridente e meigo. O olhar era límpido, quase inocente. Escondia-me do cinegrafista, tapava o rosto. Hoje constato que aquela pessoa desapareceu. Não mais me reconheço emocionalmente naquela expressão quiçá ingênua, esperançosa. Admito que boa parte daquelas esperanças foram-se. Completei o ciclo da Morte e o passado está longínquo, como se pertencesse a outra. Hades carregou as últimas ilusões do amor romântico que hoje não mais compreendo. Não sei se apaixonar-me-ei novamente mas no momento isso me parece extremamente difícil - embora eu esteja disposta a conhecer gente. Pela primeira vez experimento o sabor da leveza e se vier a manter um relacionamento duradouro com alguém, quero que o mesmo se fundamente em liberdade, compreensão mútua, leveza. Seria isso possível? Será possível modificar esse modelo sufocante e ultrapassado da maioria dos relacionamentos ditos amorosos? *** Cansada de ser um pára-raio gigante de malucos **** Não há mais tempo nem disposição a investir nesse sentido. **** Tenho a impressão de que todas as pessoas interessantes estão acompanhadas. **** Entretanto a vida oferece muitas possibilidades boas e prazerosas além. É preciso apenas enxergar. Eu vislumbro algumas. Não me sinto mais tão solitária mas sim um pouco incomodada e talvez perplexa com algumas constatações. **** Endorfinas!
- Você acredita na existência do demônio?
Olho para o garoto ao meu lado. Ele é atraente. No entanto, a alienação religiosa estava conseguindo minar a minha paciência.
- Acredito.
Eu narrara o antológico episódio do diabo surdo-mudo presenciado há anos mas ao contrário de todos os interlocutores anteriores, ele ficou sério e retrucou:
- Eu já tive um demônio surdo-mudo.
Por essa eu não esperava. Ele apresentava um comportamento estranho, ora desinibido, ora calado demais. E as críticas eram muito chatas.
- Você é muito dona de si. Está errado. Somente Deus é dono de nós.
A tarde caía no parque. Cães e respectivos propríetários passeavam. A temperatura era agradável.
- Você iria a uma igreja comigo?
Olho para ele sem entender. Tombo minha cabeça no banco de madeira e fito os galhos superiores das árvores.
- Para que?
- Por que a gente precisa ir.
- Acho que não temos nada em comum - respondo com uma frieza que ultimamente me surpreende.
- Alguma coisa temos.
- Moramos no mesmo andar, prédio, rua, bairro, cidade?
- É.
Um amigo convictamente ateu sempre diz que os religiosos-praticantes-de-igrejas pouco lêem a Bíblia. Se a lessem com alguma seriedade, enxergariam seu pronunciado tom ficcional.
- Você já leu a história de Jó?
- Não.
Como eu esperava, mais um evangélico que só lê versículo cabresteado.
- Deus e o tinhoso fizeram uma aposta sobre a fé de Jó, fervoroso fiel, servo de Deus e homem corretíssimo. O Santíssimo deixou que o Coisa Ruim se divertisse um pouco às custas de Jó, ao permitir que lhe tirasse todos os bens materiais, filhos, amigos, saúde. A cada adversidade, a fé de Jó não era abalada. Somente com a morte dos filhos ele proferiu a primeira reclamação mas uma vez aconselhado pelos três únicos amigos, recupera a sua fé e Deus lhe devolve tudo em dobro.
Ele ri e diz:
- Você é engraçada.
Juro que não compreendo. Minha mãe embora freqüente as missas quase todos os dias, tão pouco conhecia a história de Jó ou mais trechos do Livro. Lembro de uma tia que só sabia os trechos indicados em culto. E de como os donos dos templos distorciam passagens do mesmo em seu favor.
A minha paciência está cada vez mais curta com pessoas assim. Uma pena. Lembro da fala do escritor João Silvério Trevisan sobre a intrínseca relação entre a sexualidade e o sagrado. Atos de repressão sublimatória. Bastavam-me os longos de anos de auto-mortificação.
- Não o entendo.
Uma mão trêmula toca a minha.
- Só Jesus me entende.
- Ele entende a todos nós.
Percebo o quanto ele apreciou a resposta. Mas o que me intrigava era a oscilação de humor, ora brincalhão, ora sarcástico quase rude. Eu já declarara meu agnosticismo ou não conhecimento. E pouco importava a existência ou não de Satanás. Eu já abdicara da salvação eterna aos dezoito anos ao romper a amizade com o grupo cristão da universidade, uns fiscais chatos que censuravam roupas, batom, comportamento e ainda queriam me obrigar a fazer lições de bíblia todos os dias. Além disso, eu detestava as cantorias e as palmas freqüentes destes estabelecimentos. No mais eu ainda dou prioridadade aos recados do baralho (terei a cabeça torcida ao contrário quando chegar ao inferno - de acordo com Dante)
Fico com uma certa pena do menino, tão jovem e a lutar dessa forma contra a leveza vital.
Ele tenta me fazer rir sem sucesso. Para provocar o meu riso, é preciso fazer muito. Sou de pouca fala e pouca risada.
Por fim, permito que ele me beije. Seus lábios são delicados e superficiais. Retribuo da mesma forma. Já não intensifico os beijos como outrora, agora prefiro perceber o ritmo do outro. E mesmo não adiantava muito, uma vez que o guri se desvencilhou suavemente de mim quando acariciei de leve seu pescoço.
- Tchau.
- Tchau.
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Madalena de Vilhena
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Tanto tempo. Não era mais possível voltar, não havia para onde, nenhum lugar. Nunca pensara lembrar daquela combinação. Já reconhecia e aceitava suas reais necessidades. Não havia mais disfarces. O corpo sofria com a auto-mortificação, agradecia algum raro momento de trégua. Sim, fora uma trégua. Em seguida uma profunda melancolia tomara conta de seu espírito. As travas narcísicas do outro arranhavam-lhe a pele e a auto-estima, machucavam-lhe uma epiderme que implorava por mão perspicaz. À luta do corpo, o relaxamento do corpo, trouxeram a paz medida por conta-gotas e poucas horas depois - embora a fome estivesse parcialmente apaziguada e resíduos sensoriais ainda estivessem presentes - a satisfação breve cedia espaço à melancolia. Na melancolia era possível sublimar, produzir, tentar não pensar nos avisos incessantes do corpo, um corpo que sofrera com resistências e temores prolongados. No entanto - agora sabia - as questões eram de outra natureza. Já não é mais possível enganar a si mesmo. Ainda pensa nos porquês da persistente melancolia. Estivera muito perto da loucura. Alcançara uma fronteira limite. O limite de uma existência insatisfatória, insustentável, insuportável. Cheia de repetições, falhas, medos. Uma existência precária. Não é possível mais esconder, talvez isso o tivesse deixado tão melancólico. O outro era como um cofre, cujo acesso era-lhe permitido apenas uma única vez, por minutos cronometrados antes do trancamento final, depois do qual nenhuma combinação surtia efeito e a luta dos dedos era inútil. Era essa a causa da melancolia maior. Sentia-se microscópico. Percebia tal fato nas reações dos outros. Era uma crise. Mais uma. Estava calmo. Visceralmente triste.
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Madalena de Vilhena
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As antigas armadilhas psíquicas já se mostram ineficazes. Até sinto espanto diante de um comportamento de duas semanas atrás, apenas. A velha voracidade. Raras vezes dou-me ao luxo de agir sem pensar... minutos depois me arrependo (não sempre, claro). Parece que perdi um pouco do medo de viver mas ainda não sei bem como fazer aproximações entre seres humanos. Meto os pés pelas mãos, demonstro todo meu desejo. Tirei um grande peso dos braços e do cérebro. Os ruídos externos da avenida já incomodam menos. Convivo comigo tentando descobrir quem sou. Antigas preferências retornam numa nova roupagem. Penso como pesquisador e ajo como adolescente a descobrir modos de olhar, de falar, de sentir.
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Madalena de Vilhena
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